Imprimir

O Professor Amarílio e a soja

 

A profunda admiração pela soja, fez com que o Professor Amarílio se dedicasse ao estudo e pesquisa desta preciosa leguminosa, com o maior interesse. Tudo começou em fevereiro de 1919, quando a soja foi introduzida em Barbacena, com a formação da 1ª quadra de plantio do milagroso feijão japonês, nos terrenos do Antigo Aprendizado Agrícola.

Na época, o Aprendizado Agrícola era dirigido pelo Dr. Diaulas Abreu e o Professor Amarílio era aluno daquele estabelecimento agrícola.

Lendo suas memórias, nós vamos perceber a alegria do Professor na formação da 1ª quadra de plantio da soja, em Barbacena, quando ele mesmo conta: “Em nossa querida Barbacena, no Antigo Aprendizado Agrícola, hoje Colégio Agrícola Diaulas Abreu”, plantamos com muito prazer a 1ª quadra de soja, em fevereiro de 1919, com sementes que foram trazidas de São Paulo”.

Em 1949, ele iniciou uma campanha de divulgação da soja em toda a região de Barbacena, mostrando ao público os produtos e subprodutos da “oitava maravilha do mundo”, como o Professor Amarílio batizara a soja.

Naquela época, ele preconizou o valor e a importância da soja para o futuro de nosso país.

O Professor Amarílio se tornou o pioneiro do cultivo e da utilização dos produtos e derivados da soja no Estado de Minas Gerais. Ele executou com a soja um trabalho tão característico, tão desprendido e tão patriótico, no campo da experimentação e do fomento, que lhe valeu uma promoção na sua vida profissional e mereceu elogios da antiga Superintendência do Ensino Agrícola e Veterinário, do Ministério da Agricultura. Foi, então que o Dr. Diaulas Abreu, reconhecendo o entusiasmo que ele alimentava pela planta, lhe confiou a tarefa de percorrer cidades de Minas Gerais e do Estado do Rio de Janeiro para proferir palestras e conferências sobre a soja, bem como fazer exposições de seus produtos e derivados.

É importante ressaltar que esses produtos e derivados eram feitos pelo Professor Amarílio, com a ajuda de sua esposa e de seus filhos, com os seus próprios recursos, sem receber nenhum auxílio financeiro para tal.

Os produtos e derivados da soja que ele fazia eram esses: leite, café, fubá, angu, bolos, broas, bolinhos, croquetes, biscoitos, caseína, coalhada, caldo de soja, doce de leite em tablete, farinha, feijão, grelos de soja em salada, manteiga, massa para empadas, massa para pastéis, massa para talharins, óleo, paçoca, polenta, pudim, pão misto, pés de moleque, panquecas, queijo, requeijão, rações para aves, suínos e bovinos, salgadinhos, suflês, molho e temperos, pudim misto de soja, pastel de soja, bifes à milanesa e outros.

Em 1956, o Boletim de Agricultura da Secretaria de Agricultura, Indústria, Comércio e Trabalho do Estado de Minas Gerais, publicou um artigo do Professor Amarílio, intitulado Cultura da Soja, através do qual ele mostrou todo o seu conhecimento sobre a soja, revelando os produtos e derivados do feijão-soja, que ele já manipulava e fabricava.

O Professor Amarílio tornou-se um autodidata na Cultura da soja, inclusive com experiências próprias realizadas no Colégio Agrícola Diaulas Abreu, quando o Ministro da Agricultura, João Cleofas, determinou a criação de um campo experimental no Colégio Agrícola, face ao trabalho dinâmico e pioneiro do Professor Amarílio.

Em fevereiro de 1957, o Professor Amarílio mandou fazer uma análise do leite de soja que ele fabricara em Barbacena. Dois dias após, o Laboratório FELCT do Rio de Janeiro, enviou o resultado da análise, comprovando a riqueza e semelhança do leite de soja ao do leite comum.

Eis o resultado da análise:

  • Densidade: 1.064,40
  • Gordura: 1,0%
  • Cinzas: 0,3%
  • Extrato: 18,6%
  • Ácido Láctico (em D): 13%
  • Lactose: 0,8%
  • Sacarose: 3,4%
  • Baunilha: traços
  • Protéicos: 11,4%

Observações: Composição química semelhante à do leite bovino. Alimento rico em proteínas, altamente nutritivo.

O Professor Amarílio ficou muito alegre com este resultado, principalmente pelo fato de que o leite de soja seria muito benéfico para pessoas alérgicas.

Por outro lado, o leite de soja poderia ser usado no aleitamento artificial de bovinos, em substituição ao leite de vaca para uso humano, pelo menos parcialmente.

Em 1957, a Revista Turrialba, do Instituto Interamericano de Ciências Agrícolas, publicada em Turrialba, Costa Rica, fez referências sobre a soja, enaltecendo as experiências feitas pelo Professor Amarílio, desenvolvidas no Colégio Agrícola Diaulas Abreu. No período compreendido entre 1952 e 1960, o Professor Amarílio visitou várias cidades, onde realizou palestras sobre a cultura da soja, aproveitamento de seus produtos, sua importância na alimentação do homem e dos animais e também, como fertilizadora do solo agrícola.

Após as palestras, ele oferecia aos presentes, vários produtos e derivados da soja, jácitados anteriormente.

As cidades visitadas por ele foram: Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Viçosa, Bambuí, Alfenas, Sete Lagoas, Petrópolis, Juiz de Fora, Rio Pomba, São João Del Rei, Pedro Leopoldo, Entre Rios de Minas e as cidades vizinhas a Barbacena.

O Professor Amarílio colaborou com várias revistas e jornais, com publicações de artigos seus sobre a soja. Naquela época, vários médicos alergistas do Rio de Janeiro, Curitiba e Belo Horizonte vieram a Barbacena para entrevistas com o Professor Amarílio, solicitando também suas receitas na utilização da soja, o que era feito gratuitamente pelo Professor Amarílio sem nenhum interesse financeiro.

A Superintendência do Ensino Agrícola e Veterinário, do Ministério da Agricultura, concedeu-lhe o Diploma de Honra ao Mérito, pelo seu incentivo e pioneirismo na divulgação da cultura e aproveitamento da soja, em Minas Gerais, na região de Barbacena e no Rio de Janeiro.

Sua insistência na propaganda do feijão-soja foi tão intensa que lhe deram a alcunha de “Professor Soja” e “Dr. Soja”.

Mesmo após ter aposentado do Colégio Agrícola Diaulas Abreu, o Professor Amarílio continuou sua campanha de divulgação da soja, sua cultura, seus produtos e derivados, através de palestras que fazia nos estabelecimentos de ensino de Barbacena e de outras cidades.

Ele fez também uma outra campanha junto aos pecuaristas da região de Barbacena, no sentido de que, sem perda de tempo, semeassem a soja em suas propriedades, devido às suas qualidades como planta forrageira. Ele recomendava que a soja deveria ser semeada, mesmo que consorciada com o milho, para que fosse feita uma silagem equilibrada para o arraçoamento do rebanho durante o inverno, tornando-se uma ração volumosa, mais rica, não só para mantença como também para o aleitamento dos animais, devido à grande riqueza da soja em proteínas de fácil digestibilidade e assimilação pelo organismo, além de outras características nutritivas.

Devido a versatilidade da soja, suas características fisiológicas, sua riqueza nutritiva, suas características agronômicas e suas potencialidades para a alimentação humana, o Professor Amarílio ficou empolgado por tudo que conhecia a respeito desta planta e não perdia tempo em divulgar tudo de bom que a soja podia proporcionar. O Professor Amarílio foi despertado pelo comportamento da soja, pois a usava em rotação ou afolhamento em áreas intensamente agricultadas na Escola Agrotécnica, com exploração de hortaliças durante o ano, e após o plantio da soja, no ano seguinte, o terreno estava plenamente fertilizado, em face da manta de vegetal que era incorporada ao solo e também por causa da fixação gratuita do nitrogênio do ar pelas bactérias simbióticas, “Rhizobium Japonicum” alojadas nas raízes da soja, além de outras característics culturais que a planta oferece.

Neste sentido, como prática de adubação verde, o Professor Amarílio ficava maravilhado com as qualidades da soja, que restaurava eficientemente a vitalidade e a produtividade da terra agricultada todo o ano. A simpatia e a admiração do Professor Amarílio pela soja eram tão grandes, que solicitou de seu filho mais velho, engenheiro agrônomo Carlos Augusto de Paula, que permitisse dar o nome de Tandra, variedade de soja que inicialmente, mais trabalhou em sua observações e pesquisas, a sua primeira neta, o que aconteceu em 1960.

Muitas pessoas consideravam o Professor Amarílio como um verdadeiro fanático pela soja, que, sem dúvida alguma, tornou-se um importante produto de exploração brasileira. Sua visão a respeito da importância e da utilização da soja, tornou-se realidade e o maravilhoso feijão transformou-se numa fonte de riqueza alimentar.

Não podemos deixar de ressaltar que o trabalho pioneiro e dedicado do Professor Amarílio, na divulgação o fomento da soja, propagou enormemente o nome do Colégio Agrícola Diaulas Abreu, o Estado de Minas Gerais e principalmente Barbacena, cidade que ele muito amou e serviu.

Deixamos aqui registrado um poema que o Professor Amarílio escreveu, dedicado á soja, em fevereiro de 1974.

(Trecho extraído do livro Professor Amarílio Augusto de Paula – Uma vida dedicada a servir ao próximo do autor Luiz Felipe Domith de Paula)

 

O milagroso feijão japonês


Professor Amarílio Augusto de Paula
Fevereiro de 1974

Na cova rasa lancei
Um grãozinho de soja;
Duas folhinhas notei,
Que brotavam viçosas.

Lembravam duas mãozinhas
Suplicando a Deus perdão,
Aquelas duas folhinhas,
Na epígea germinação.

Do céu, qual benção divina,
Macia, a chuva chegou;
Generosa, na surdina,
A boa terra molhou.

Adornavam a paisagem,
Vivas flores amarelas,
Entre o verde da folhagem,
Eu bem via das janelas.

Favas graúdas primorosas.
Aos punhados deparei.
Foi safra frutuosa,
Aquela que semeei.

(Trecho extraído do livro Professor Amarílio Augusto de Paula – Uma vida dedicada a servir ao próximo do autor Luiz Felipe Domith de Paula)